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Bill Gates admite que Epstein usava casos extraconjugais como “alavanca” para manter o bilionário por perto

3 de out.
9 min de leitura

Cofundador da Microsoft admitiu que se aproximou de Epstein entre 2011 e 2014 em busca de recursos para projetos globais de saúde. Gates negou envolvimento criminal, negou ter ido à ilha


WASHINGTON, 11 de junho de 2026 — O co-fundador da Microsoft, Bill Gates, compareceu nesta quarta-feira, 10 de junho de 2026, ao Capitólio, em Washington, para prestar depoimento a portas fechadas ao Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. O tema era sua relação com Jeffrey Epstein, o financista criminoso sexual cuja rede de contatos envolvia bilionários, políticos, acadêmicos, banqueiros e figuras do alto poder americano.

Para o público brasileiro, é importante entender o peso institucional da audiência. O Comitê de Supervisão da Câmara — conhecido nos Estados Unidos como House Oversight Committee — é uma comissão parlamentar com poder de investigar atos do governo federal, documentos públicos, autoridades, contratos, falhas administrativas e casos de grande interesse nacional. Em março, o próprio comitê afirmou que investigava a suposta má condução da investigação federal sobre Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, a morte de Epstein, redes de tráfico sexual, a tentativa de Epstein e Maxwell de conquistar influência junto a pessoas poderosas e possíveis violações éticas envolvendo autoridades eleitas.

Bill Gates, hoje uma das figuras mais conhecidas da “filantropia mundial”, é o homem que cofundou a Microsoft em 1975 com Paul Allen e depois passou a dedicar sua imagem pública à Gates Foundation, fundação voltada a saúde global, educação, inovação e desenvolvimento. A própria fundação registra que Gates deixou o trabalho cotidiano na Microsoft em 2008 para se concentrar integralmente em sua atuação filantrópica.

Foi justamente essa imagem de filantropo global que, segundo Gates, o levou a aceitar contato com Epstein. No depoimento inicial, Gates negou ter conhecimento da conduta criminosa de Epstein enquanto se relacionou com ele, mas admitiu que se associou ao financista entre 2011 e 2014 para tentar ampliar recursos destinados a projetos internacionais de saúde.

“Eu nunca fui à ilha dele, ao rancho dele ou à casa dele na Flórida. Eu nunca vitimizei ninguém”, declarou Gates.

“Embora ele possa ter tentado cultivar uma relação pessoal, eu nunca tive interesse nisso e nunca correspondi”.

A frase é central porque toca em três lugares associados ao caso Epstein: a ilha particular no Caribe, o rancho e a residência na Flórida. Gates fez questão de negar presença nesses locais e também negou qualquer participação em vitimização.

Jeffrey Epstein, morto em 2019 enquanto aguardava julgamento federal, já havia sido condenado anteriormente por crimes sexuais na Flórida. Em 2025, o Departamento de Justiça dos EUA informou, ao anunciar a liberação da primeira fase dos chamados arquivos Epstein, que os documentos estavam relacionados ao criminoso sexual condenado e à exploração sexual de mais de 250 menores em propriedades em Nova York, Flórida e outros locais.

O ponto mais explosivo do depoimento, porém, veio quando Gates afirmou que Epstein descobriu informações de sua vida íntima e tentou usá-las como instrumento de pressão. Gates disse que Epstein soube que ele havia “sido infiel no casamento” e buscou “usar informações sobre minhas infidelidades — além de muitas mentiras que ele acrescentou por cima — para me pressionar a retomar contato com ele”.

Segundo Gates, Epstein fracassou nessa tentativa.

“Ele não teve sucesso nessa tentativa, mas isso mostra algumas das maneiras pelas quais ele tentou usar suas interações comigo como alavanca para promover sua agenda”, acrescentou Gates.

A palavra “alavanca” aqui traduz o termo inglês “leverage”, usado para descrever poder de pressão, chantagem, vantagem estratégica ou capacidade de forçar alguém a agir. No contexto do caso, a acusação é grave: Gates não disse apenas que Epstein sabia de informações constrangedoras; disse que o financista tentou transformá-las em instrumento para reaproximá-lo.

O New York Post informou que, em fevereiro, Gates havia confessado a funcionários da Gates Foundation ter tido dois casos extraconjugais com mulheres russas. Ao menos uma delas, segundo a reportagem, parece ter sido usada por Epstein em uma tentativa de extorsão contra Gates. O jornal também afirmou que Gates teria reconhecido ter sido acusado de mais de 20 envolvimentos extraconjugais durante o divórcio de sua ex-mulher, Melinda French Gates.

Melinda French Gates é a ex-esposa de Bill Gates e foi, durante anos, cofundadora e rosto público da antiga Bill & Melinda Gates Foundation. O casal se divorciou após 27 anos de casamento. No caso Epstein, ela é personagem relevante porque já declarou publicamente que a relação de Bill Gates com Epstein contribuiu para o desgaste do casamento.

Em sua declaração ao comitê, Gates tentou apresentar sua aproximação com Epstein como erro de julgamento, não como adesão à rede criminosa. Ele disse que hoje entende melhor a estratégia de Epstein.

“Vejo agora que [Epstein] procurou construir uma imagem de legitimidade em torno de si mesmo, usando conexões com pessoas respeitáveis e poderosas para desviar a atenção e tentar reabilitar sua reputação”, afirmou Gates.

Em seguida, admitiu que o interesse em levantar dinheiro para causas globais o cegou.

“Eu estava tão concentrado na possibilidade de levantar recursos para a saúde global que permiti que esse objetivo se sobrepusesse ao meu melhor juízo.”

A explicação é relevante porque expõe a lógica pública de Epstein após sua condenação: cercar-se de nomes poderosos, acadêmicos, políticos, empresários, bilionários, cientistas e filantropos para reconstruir uma fachada de respeitabilidade. Para Gates, segundo sua própria narrativa, Epstein vendeu a promessa de acesso a grandes fortunas interessadas em doações globais.

Ao chegar e sair da audiência, Gates apareceu com um sorriso tenso. Antes de entrar, limitou-se a dizer aos jornalistas: “Espero que meu depoimento seja útil ao importante trabalho do comitê de buscar justiça para as vítimas”.

Entre os parlamentares, dois nomes conduzem o peso político da investigação. James Comer, republicano do Kentucky, é o presidente do Comitê de Supervisão. Robert Garcia, democrata da Califórnia, é o principal democrata do painel — nos Estados Unidos, esse cargo é chamado de ranking member, uma espécie de líder da minoria na comissão.

Garcia afirmou a repórteres, durante uma pausa no interrogatório, que os comentários de Gates revelavam um “tema” de “chantagem” e de Epstein “usando seu poder de informação contra outras pessoas”.

Comer, por sua vez, ressaltou que o comitê não estava “acusando Bill Gates de qualquer irregularidade”. A ressalva é juridicamente importante: Gates foi ouvido como pessoa com informações relevantes para a investigação, não como réu no caso. Ainda assim, Comer disse que os deputados queriam entender melhor a relação do filantropo com Epstein e com Ghislaine Maxwell.

Ghislaine Maxwell é a cúmplice mais conhecida de Epstein. Socialite britânica, filha do magnata Robert Maxwell, ela foi condenada nos Estados Unidos e sentenciada em 2022 a 20 anos de prisão por seu papel em um esquema de exploração e abuso sexual de menores ao lado de Epstein. O Departamento de Justiça afirmou que Maxwell ajudou a recrutar, preparar e abusar de meninas menores de idade, algumas com apenas 14 anos.

A presença de Maxwell no depoimento é essencial porque o caso não envolve apenas crimes individuais de Epstein, mas uma rede de facilitação, proteção, influência, recrutamento e silenciamento. É justamente essa rede que o comitê diz tentar compreender.

A reportagem também cita e-mails e fotos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA. Para o público brasileiro, o DOJ — Department of Justice — é o órgão federal americano responsável por investigações, ações penais federais, procuradorias federais e aplicação de leis nacionais. Não é exatamente igual ao Ministério da Justiça brasileiro, nem exatamente igual ao Ministério Público Federal; acumula funções que, no Brasil, ficam repartidas entre órgãos diferentes.

Segundo o material divulgado, Epstein chegou a escrever um e-mail afirmando, de forma lasciva, que Gates teria pedido ajuda ao financista “para lidar com as consequências de sexo com garotas russas”. Um representante de Gates chamou essa alegação de “absolutamente absurda e completamente falsa”.

Duas mulheres russas aparecem na reportagem. Uma delas é Mila Antonova, jogadora de bridge — jogo de cartas muito popular em círculos intelectuais e de elite — que teria se envolvido com Gates. A outra é descrita como ex-funcionária da TerraPower, empresa de energia nuclear fundada por Gates e outros investidores para desenvolver tecnologia nuclear avançada.

Epstein, segundo o jornal, irritou-se em e-mails por causa desses casos. Em uma mensagem de 2017 a Boris Nikolic, assessor de Gates em sua fundação, Epstein reclamou: “O homem mais rico do mundo é tão pão-duro”. Em seguida, acrescentou que “sua ex-garota do bridge e brinquedinho mora no sofá de amigos”.

Boris Nikolic é outro nome importante. Ele aparece como conselheiro próximo de Gates no ambiente da fundação e surge na reportagem como destinatário de uma mensagem de Epstein. Segundo a fonte citada pelo Post, Nikolic também teria conhecido a identidade de uma terceira mulher, médica, que teve um caso com Gates, embora não esteja claro se Epstein sabia dessa relação.

O caso Antonova é particularmente sensível. Segundo o Wall Street Journal, Epstein teria ameaçado Gates com a exposição do caso com Antonova porque Gates se recusou a aderir a um fundo filantrópico concebido por Epstein e executivos do JP Morgan Chase. O JP Morgan é um dos maiores bancos dos Estados Unidos e um dos símbolos do sistema financeiro americano. A reportagem informa que o dinheiro nunca foi pago, segundo representantes da fundação.

Ao mesmo tempo, Epstein teria pagado para que Antonova frequentasse um curso intensivo de programação enquanto ela buscava uma carreira em desenvolvimento de software, segundo ela própria contou ao Journal em 2023.

As fotos divulgadas pelo DOJ também mostram Gates ao lado de Epstein e de outros homens poderosos. Uma imagem de janeiro de 2011 mostra Gates com Jes Staley, Lawrence Summers, Jeffrey Epstein e Boris Nikolic. Jes Staley é banqueiro, ex-executivo do JP Morgan e ex-presidente do Barclays. Lawrence Summers é economista, ex-secretário do Tesouro dos EUA no governo Bill Clinton e ex-presidente da Universidade Harvard, uma das instituições acadêmicas mais influentes do mundo.

O nome de Summers importa porque Harvard aparece há anos nas discussões sobre a capacidade de Epstein de se aproximar de universidades, cientistas e autoridades acadêmicas. O Post relata que uma das fotos mostra Gates, Staley e Summers em um jantar na mansão de Epstein no Upper East Side, região nobre de Manhattan, em Nova York.

Outras imagens dos chamados “Arquivos Epstein” mostram Gates posando com mulheres cujos rostos foram ocultados.

Na linha do tempo apresentada por Gates, ele conheceu Epstein em 2011. Epstein teria prometido “bilhões de dólares para a saúde global” vindos de clientes de seus serviços “tributários e sucessórios”. Em linguagem simples: Epstein dizia ter acesso a pessoas muito ricas que poderiam estruturar doações por meio de planejamento fiscal, patrimonial e sucessório.

Depois de cinco reuniões presenciais, Gates disse que as conversas chegaram a “um beco sem saída”, sem que qualquer “apoio filantrópico significativo” tivesse sido fornecido. Por isso, afirmou ter cortado contato em dezembro de 2014.

Gates também falou sobre a condenação anterior de Epstein, de 2008, na Flórida, por acusações relacionadas a prostituição e prostituição infantil. O caso obrigou Epstein a se registrar como criminoso sexual.

“Lembro-me de estar ciente de que Epstein havia enfrentado problemas legais anteriores, mas eu não compreendia plenamente a extensão dos crimes que ele cometeu”, disse Gates.

Uma fonte familiarizada com a entrevista afirmou, porém, que Gates sabia que a condenação de Epstein estava relacionada a crimes sexuais quando a relação entre os dois começou. Esse ponto é uma das chaves morais e políticas do caso: mesmo aceitando a versão de Gates de que não conhecia toda a extensão dos crimes, ele admite que sabia da existência de problemas legais anteriores.

A investigação parlamentar não termina em Gates. Comer disse a repórteres que pretende ouvir Alan Dershowitz, professor de direito e ex-advogado criminal de Epstein. Dershowitz é um jurista americano famoso, ex-professor de Harvard, que já atuou em casos de enorme repercussão. Ao Post, ele respondeu: “Eu me ofereci para depor como testemunha, e espero que eles aceitem minha oferta”.

O pedido veio depois de uma entrevista com Lesley Groff, assistente de longa data de Epstein, e com outras vítimas ou sobreviventes dos abusos. Groff é relevante porque assistentes, secretárias e administradores de agenda podem revelar a estrutura cotidiana de uma rede de contatos: quem ligava, quem visitava, quem viajava, quem era apresentado a quem.

Comer e Garcia também sugeriram que Todd Blanche deveria retornar para responder perguntas sobre a divulgação, pelo Departamento de Justiça, de cerca de 3 milhões de arquivos investigativos sobre Epstein. Blanche aparece em correspondência oficial recente do Comitê de Supervisão como procurador-geral interino dos Estados Unidos — isto é, chefe interino do Departamento de Justiça.

Ao final, Gates recomendou que o comitê consultasse ex-funcionários de sua fundação e também Lawrence Summers para avançar na investigação.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a biografia privada de Bill Gates. O depoimento coloca diante do público uma questão maior: como Jeffrey Epstein, mesmo depois de condenado por crime sexual, continuou circulando entre bilionários, banqueiros, acadêmicos, políticos e filantropos? Gates diz que foi enganado por uma promessa de recursos para saúde global. Os deputados querem saber se Epstein usava exatamente essa promessa — dinheiro, filantropia, influência e informação comprometedora — para reconstruir sua legitimidade e proteger sua rede.

A resposta de Gates foi negar crime, admitir erro e reconhecer que Epstein tentou usar sua vida privada como instrumento de pressão. A pergunta que resta para o Congresso americano é até onde ia essa engrenagem de “alavanca”, “chantagem” e influência — e quem mais foi mantido perto de Epstein pelo mesmo método.

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