Colômbia irá às urnas nesse domingo
Saúde à beira do colapso e crise domina debate presidencial
COLÔMBIA, 29 de maio de 2026 — A eleição presidencial da Colômbia, cuja primeira rodada acontece neste domingo (31), está sendo marcada por um tema que raramente ocupava o centro do debate político no país: o colapso do sistema de saúde.
Pesquisas recentes mostram que a saúde pública ultrapassou temas historicamente dominantes no cenário colombiano, como violência, narcotráfico e corrupção, e se tornou a principal preocupação da população. O avanço da crise hospitalar, a falta de medicamentos, o fechamento de serviços médicos e a explosão de ações judiciais por atendimento transformaram o assunto no eixo central da disputa pela sucessão do presidente Gustavo Petro.
O cenário expõe não apenas o desgaste do modelo de saúde colombiano, mas também uma profunda divisão ideológica sobre as causas do problema e o futuro do sistema.
Hospitais sem recursos e pacientes sem atendimento
Nos últimos anos, hospitais e clínicas passaram a reduzir atendimentos por falta de repasses financeiros. Farmácias conveniadas deixaram de entregar medicamentos mesmo quando os produtos estavam disponíveis em estoque. Em várias cidades, pacientes enfrentam meses de espera para conseguir consultas com especialistas.
Dados oficiais revelam o agravamento da crise:
As reclamações de pacientes saltaram de 915 mil em 2021 para mais de 2,1 milhões em 2025;
As ações judiciais relacionadas ao direito à saúde cresceram de 92 mil para 313 mil no mesmo período;
O rombo operacional das seguradoras do sistema disparou para níveis recordes.
No centro da crise está o modelo das EPS, empresas públicas e privadas que funcionam como intermediárias entre o Estado e hospitais, administrando os recursos da saúde. O governo Petro reduziu os repasses para essas entidades e entrou em conflito aberto com o setor.
A Suprema Corte colombiana determinou em 2025 que o valor pago pelo Estado às EPS estava defasado e precisava ser reajustado. O governo, porém, ignorou a decisão, alegando que os cálculos oficiais estavam corretos.
Enquanto isso, hospitais afirmam que não conseguem mais sustentar financeiramente os serviços.
O caso que chocou o país
A crise ganhou enorme repercussão nacional após a morte de Kevin Acosta, uma criança de sete anos que sofria de hemofilia.
Segundo investigações posteriores, o menino passou meses sem receber o medicamento essencial para controlar a doença. Após cair de bicicleta, sofreu hemorragias graves e morreu.
A declaração de Gustavo Petro sobre o caso provocou forte reação pública. O presidente afirmou que a mãe da criança deveria ter evitado que o filho andasse de bicicleta devido à condição de saúde.
Posteriormente, a Procuradoria colombiana concluiu que a morte ocorreu por negligência da seguradora responsável, que não forneceu os medicamentos necessários.
O episódio se transformou em símbolo do colapso do sistema e ampliou ainda mais a pressão política sobre o governo.
A disputa ideológica por trás da crise
A saúde virou também um campo de batalha ideológico na Colômbia.
Petro e seus aliados defendem que o atual modelo, criado nos anos 1990, transformou a saúde em um grande negócio privado. Segundo o governo, as EPS priorizam lucro, negam tratamentos caros e direcionam contratos para hospitais ligados aos próprios grupos empresariais.
O presidente costuma acusar os donos dessas empresas de “sangrar” financeiramente o sistema.
A oposição, por outro lado, afirma que o governo agravou a crise ao reduzir recursos, desorganizar os repasses e tentar desmontar o modelo sem apresentar uma alternativa viável.
Petro tentou aprovar uma ampla reforma para extinguir as EPS e substituir o sistema atual por um modelo mais centralizado no Estado. O projeto fracassou duas vezes no Congresso.
Após as derrotas legislativas, o governo passou a intervir diretamente em diversas seguradoras e aumentou os repasses diretos para hospitais públicos. Também lançou programas de atendimento domiciliar e expansão da infraestrutura estatal.
Os resultados, porém, continuam sendo duramente questionados. Intervenções federais em seguradoras acumularam denúncias de corrupção, troca constante de administradores e piora nos indicadores financeiros.
Saúde supera segurança e corrupção nas pesquisas
A deterioração do sistema alterou o humor do eleitorado colombiano.
Levantamentos recentes apontam que a saúde já é considerada o principal problema do país por parcela significativa da população — superando até mesmo a violência ligada aos grupos armados e o custo de vida.
Analistas avaliam que o tema passou a afetar diretamente a rotina da população urbana, incluindo a classe média, tornando-se uma crise visível no cotidiano.
Agora, os candidatos à Presidência tentam convencer os eleitores de que têm a solução para um sistema que muitos colombianos consideram próximo do colapso.





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