top of page

Deputado dos EUA publica montagem de Lula preso; Milei compartilha publicação

Oct 3
4 min read

Carlos Gimenez compara presidente brasileiro a dirigentes de Cuba, Nicarágua e Venezuela e afirma que Brasil ainda não se tornou uma “ditadura socialista”



ORLANDO, 9 de agosto de 2026 — A crise de imagem do governo Lula no exterior ganhou neste fim de semana uma cena que, até pouco tempo atrás, seria difícil imaginar: um integrante do Congresso dos Estados Unidos publicou uma montagem de Luiz Inácio Lula da Silva preso e vendado, enquanto o presidente da Argentina, Javier Milei, ajudou a projetar o ataque para além de Washington.

O autor da ofensiva é o republicano Carlos A. Giménez, deputado federal pela Flórida e único congressista atualmente em exercício nascido em Cuba. Giménez representa o 28º Distrito da Flórida, que abrange os Florida Keys e parte de Miami-Dade, e integra os comitês de Serviços Armados e de Segurança Interna da Câmara, além da comissão especial dedicada à competição estratégica entre os Estados Unidos e a China.

Não se trata, portanto, de um comentarista de televisão ou de um militante de redes sociais.

Trata-se de um membro em exercício da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

E Giménez resolveu falar de Lula sem qualquer preocupação diplomática.

“No Congresso dos EUA sabemos que Lula da Silva, no Brasil, é um criminoso condenado, corrupto e comunista, assim como Díaz-Canel em Cuba, Ortega na Nicarágua e Delcy na Venezuela”, escreveu o parlamentar.

A frase é uma declaração política de Gimenez. Do ponto de vista jurídico, cabe a ressalva: Lula foi condenado e chegou a cumprir pena nos processos da Lava Jato, mas essas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021.

O que torna o episódio especialmente significativo, entretanto, não é apenas o vocabulário escolhido pelo deputado.

É a comparação.

Giménez colocou o presidente brasileiro no mesmo campo político de Miguel Díaz-Canel, chefe do regime cubano; Daniel Ortega, que governa a Nicarágua sob sucessivas denúncias internacionais de repressão; e Delcy Rodríguez, uma das principais figuras do chavismo venezuelano.

E foi além:

“A única diferença é que ele ainda não conseguiu transformar o Brasil em uma ditadura socialista.”

A publicação veio acompanhada de uma montagem digital em que Lula aparece vendado e detido. Em outra manifestação neste domingo, Gimenez voltou ao assunto e afirmou que o Brasil “merece liberdade, democracia e um futuro longe da influência castrocomunista”.

A imagem tem evidentemente caráter provocativo e satírico. Politicamente, porém, o recado não poderia ser mais explícito.

Milei entra em cena

O ataque deixou de ser apenas uma manifestação de um congressista americano quando atravessou a fronteira.

Javier Milei compartilhou a publicação e acrescentou uma única palavra:

“Ups!”

Foi suficiente.

O presidente argentino transformou uma provocação de um parlamentar republicano em mais um capítulo da deterioração pública de sua relação com Lula.

A imprensa argentina repercutiu o episódio neste domingo. O gesto ocorre poucos dias depois de Milei voltar a chamar Lula de “ladrão” e “corrupto” e em meio a uma escalada de declarações entre Buenos Aires e Brasília.

Há uma diferença importante entre discordância ideológica e o que está acontecendo agora.

Presidentes latino-americanos sempre tiveram adversários em Washington. O problema para o Palácio do Planalto é observar críticas dessa natureza começarem a circular simultaneamente entre parlamentares americanos, lideranças republicanas e o próprio presidente do segundo maior país da América do Sul.

A publicação de Giménez não representa, por si só, a posição oficial do governo dos Estados Unidos. Seria incorreto apresentá-la dessa maneira.

Mas também seria ingênuo tratá-la como uma postagem qualquer.

Giménez é republicano, cubano-americano, representa uma região da Flórida marcada pelas comunidades que deixaram regimes socialistas latino-americanos e ocupa posições relevantes em comissões da Câmara. Sua trajetória política foi construída, em grande medida, justamente em torno da oposição ao comunismo cubano e aos governos aliados de Havana.

Sua família deixou Cuba após a tomada do poder por Fidel Castro. Giménez chegou aos Estados Unidos ainda criança, estabeleceu-se em Miami e, antes de chegar ao Congresso, foi chefe do Corpo de Bombeiros de Miami, administrador da cidade e prefeito de Miami-Dade.

Quando ele coloca Lula ao lado de Díaz-Canel e Ortega, portanto, a escolha não é acidental.

Lula entra no radar da direita continental

O episódio também revela um fenômeno mais amplo.

Durante anos, as relações internacionais de Lula foram apresentadas pelo próprio governo brasileiro como um de seus principais ativos políticos. O presidente cultivou proximidade com governos de esquerda da América Latina, retomou relações com Nicolás Maduro, preservou a histórica ligação do PT com Cuba e adotou posições internacionais que frequentemente o colocaram em confronto retórico com setores conservadores americanos.

Agora existe o movimento contrário.

Lula tornou-se personagem da política doméstica de outros países.

Para Milei, é um adversário ideológico.

Para setores republicanos de Washington, tornou-se símbolo da esquerda latino-americana.

Para Giménez, já aparece publicamente colocado no mesmo retrato político de Havana, Manágua e Caracas.

E isso acontece em um momento particularmente delicado para Brasília.

A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa uma fase de tensão, enquanto o relacionamento pessoal entre Lula e Milei praticamente desapareceu sob uma sequência de ataques públicos.

Nesse ambiente, uma montagem que poderia terminar esquecida no algoritmo do X ganhou uma dimensão política muito maior.

Primeiro, porque veio de dentro do Congresso americano.

Depois, porque foi amplificada pelo presidente argentino.

E, finalmente, porque a mensagem deixa de discutir apenas uma decisão específica do governo brasileiro.

O alvo passou a ser o próprio Lula.

É esse talvez o aspecto mais incômodo para o Itamaraty.

A discussão já não se limita a tarifas, eleições, declarações diplomáticas ou divergências sobre Venezuela e Cuba. Parte da direita continental começa a construir uma caracterização internacional do presidente brasileiro — e Gimenez decidiu expressá-la da maneira mais agressiva possível.

Na montagem, Lula aparece preso.

Na legenda, aparece ao lado de Cuba, Nicarágua e Venezuela.

E Milei, presidente do país com o qual o Brasil divide sua relação bilateral mais importante na América do Sul, resolveu garantir que todo mundo visse.

Confirmei também a posição institucional de Gimenez: ele é republicano pela Flórida, representa o 28º distrito e integra Serviços Armados, Homeland Security e a comissão sobre competição EUA–China. A repercussão argentina neste domingo registra tanto o compartilhamento de Milei quanto a nova manifestação de Gimenez contra Lula.

Comments


bottom of page