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Mendonça freia obstrução de Lula: petista queria retirar delegados da PF no STF

Oct 3
3 min read

Publicado originalmente por Redação Timeline em 07/07/2026

O alerta foi feito após o Ministério da Justiça iniciar uma ofensiva para determinar o retorno de mais de cem policiais federais cedidos a outros órgãos da administração pública


BRASÍLIA, 6 de julho de 2026 — O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, avisou reservadamente ao governo Lula que uma eventual ordem para retirar delegados da Polícia Federal que atuam em gabinetes da Corte poderia ser interpretada como tentativa de obstrução de Justiça, segundo pessoas a par das conversas.

O alerta foi feito após o Ministério da Justiça iniciar uma ofensiva para determinar o retorno de mais de cem policiais federais cedidos a outros órgãos da administração pública. A justificativa oficial é reforçar os quadros da PF no combate ao crime organizado. No STF, porém, a explicação foi recebida com ceticismo — para dizer o mínimo.

Mendonça, ex-ministro da Justiça no governo Jair Bolsonaro, é relator de duas das investigações mais sensíveis hoje em tramitação no Supremo: o caso Banco Master e o inquérito sobre desvios bilionários em aposentadorias do INSS. Ambos os casos têm potencial explosivo em ano eleitoral, por envolverem personagens com trânsito em diferentes campos políticos, além de possíveis reflexos sobre integrantes do próprio sistema de poder em Brasília.

Hoje, quatro delegados da PF auxiliam ministros do Supremo. Dois estão no gabinete de Mendonça, um atua com Luiz Fux e outro integra a equipe de Alexandre de Moraes, relator de investigações que atingiram diretamente Jair Bolsonaro e aliados, como o inquérito das fake news e a ação penal sobre a chamada trama golpista.

Mais de 50 órgãos públicos já foram notificados pelo Ministério da Justiça sobre o retorno de policiais cedidos. O STF, até agora, ficou fora da lista. A ausência de ofício permitiu que os delegados continuassem trabalhando normalmente na Corte.

Nos bastidores do Supremo, a avaliação é que uma investida contra os policiais que auxiliam os ministros poderia ser vista como interferência direta no funcionamento de investigações em curso. Em outras palavras: o governo poderia dizer que está reorganizando quadros; a Corte poderia responder que está vendo alguém mexer no tabuleiro quando as peças começam a incomodar.

Um integrante da Polícia Federal ouvido reservadamente ironizou a justificativa apresentada pelo governo.

“Esse motivo do governo não é verdadeiro. É como jogar um copo d’água no Rio Tietê e dizer que isso vai melhorar a qualidade da água”, afirmou.

Na sexta-feira (3), durante café da manhã com jornalistas, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse que o Ministério da Justiça ainda avaliaria a situação dos delegados cedidos ao Supremo.

“É uma avaliação que o ministério está fazendo ainda. Por enquanto não há essa definição, até porque há uma necessidade de fazer uma análise da posição estratégica”, disse Rodrigues.

Procurado, o gabinete de André Mendonça não se manifestou.

INSS, Lulinha e o incômodo no Planalto

A tensão ocorre em meio à pressão do governo pelo arquivamento de uma linha de investigação envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no caso INSS.

A investigação apura fraudes em benefícios previdenciários e tem como uma das personagens centrais a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e herdeira de um ex-acionista do Credit Suisse. Ela foi alvo de busca e apreensão e teve a quebra de sigilo determinada por decisão de Mendonça.

Roberta disputou uma vaga de deputada estadual por São Paulo em 2018 pelo PT. Recebeu 14,1 mil votos e não se elegeu. À Justiça Eleitoral, declarou à época possuir um único bem: um apartamento avaliado em R$ 1,5 milhão.

Uma das hipóteses investigadas pela PF é se Roberta teria atuado como intermediária entre Lulinha e Antônio Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”. No fim do ano passado, a Polícia Federal informou ao Supremo que apurava menções ao filho do presidente no inquérito.

Na representação, os investigadores afirmaram que Lulinha, “em tese, poderia atuar como sócio oculto” do Careca do INSS. O filho do presidente nega qualquer irregularidade.

A disputa, portanto, vai além de uma simples movimentação administrativa de policiais. No papel, trata-se de recompor efetivos. Na prática, em Brasília, a pergunta é outra: quem ganha quando investigadores são removidos justamente dos gabinetes que tocam inquéritos politicamente tóxicos para o governo?

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