Moraes não obteve vitória alguma nos EUA
Publicado originalmente por Redação Timeline em 25/06/2026
CNN, Globo e VEJA mentem sobre a decisão da Justiça dos EUA no caso Moraes
ORLANDO, 24 de junho de 2026 — A cobertura feita por veículos brasileiros sobre a mais recente decisão da Justiça Federal dos Estados Unidos envolvendo Alexandre de Moraes, a Rumble e a Trump Media acabou produzindo uma narrativa que não corresponde integralmente ao conteúdo da ordem judicial.
Entre os exemplos está a interpretação reproduzida pela CNN Brasil de que a Justiça americana teria autorizado a Advocacia-Geral da União (AGU) a “defender Moraes” e que a decisão representaria uma importante vitória do ministro do Supremo Tribunal Federal.
Uma leitura mais cuidadosa do despacho, porém, mostra que a situação é mais complexa.
O que o juiz realmente decidiu
A decisão autorizou o Governo do Brasil a intervir no processo. Em linguagem jurídica americana, isso significa que o Estado brasileiro poderá ingressar formalmente na ação para apresentar seus próprios argumentos.
Trata-se de uma medida processual relativamente comum quando um governo estrangeiro sustenta possuir interesse direto no resultado de determinada causa.
O que a decisão não afirma é que a AGU passou a representar Alexandre de Moraes como pessoa física ou que o Brasil substituiu o ministro como parte processual.
A distinção parece técnica, mas é fundamental.
O tribunal autorizou a participação do Estado brasileiro. Não declarou que o Estado brasileiro é o próprio Alexandre de Moraes nem que Moraes compareceu ao processo por meio da AGU.
O equívoco sobre a “parte real interessada”
Outro ponto explorado por parte da imprensa foi a suposta conclusão da Justiça americana de que o Brasil seria a chamada “real party in interest” — expressão jurídica que pode ser traduzida como “verdadeira parte interessada”.
Mas o despacho não diz isso.
O juiz apenas registrou que o Brasil alega ser a parte interessada no caso.
Há enorme diferença entre descrever um argumento apresentado por uma das partes e acolher esse argumento como conclusão judicial.
Até o momento, a tese defendida pela AGU continua sendo apenas uma tese.
Ela ainda precisará ser analisada pelo tribunal.
O processo não foi suspenso
Também não corresponde ao conteúdo da decisão afirmar que o caso foi suspenso.
O que ocorreu foi a revogação de uma medida relacionada ao pedido de revelia apresentado pelas empresas autoras.
A Trump Media e a Rumble haviam pedido que Moraes fosse considerado em default por não ter respondido ao processo dentro do prazo inicialmente previsto.
O juiz rejeitou o pedido naquele momento.
Mas fez isso sem impedir que a questão seja novamente levantada no futuro.
Na prática, o processo continua tramitando normalmente.
A verdadeira batalha ainda nem começou
O ponto central da disputa permanece sem resposta.
A AGU protocolou pedido para que toda a ação seja arquivada.
Esse pedido ainda não foi julgado.
A partir de agora, Rumble e Trump Media terão oportunidade de contestar os argumentos apresentados pelo governo brasileiro.
Somente depois disso o juiz decidirá se o caso deve continuar ou ser encerrado.
É nessa fase que surgirão as questões realmente relevantes:
Alexandre de Moraes pode invocar imunidade perante tribunais americanos?
O Estado brasileiro pode ser considerado a verdadeira parte interessada?
Ordens judiciais emitidas no Brasil podem produzir efeitos sobre empresas sediadas nos Estados Unidos?
Há conflito entre decisões do STF e as garantias da Primeira Emenda da Constituição americana?
Nenhuma dessas perguntas foi respondida pela decisão divulgada nesta semana.
A decisão representa um resultado processual favorável à estratégia jurídica de Moraes e da AGU, mas está longe de constituir uma vitória definitiva.
A Justiça americana apenas permitiu que o Governo do Brasil participasse do caso e adiou a análise do pedido de arquivamento.
O mérito da disputa continua completamente em aberto.
Por isso, a narrativa de que a Justiça dos Estados Unidos reconheceu o Brasil como parte do processo, autorizou a AGU a defender pessoalmente Alexandre de Moraes ou validou as teses apresentadas pelo governo brasileiro simplesmente não encontra respaldo no texto da decisão.
A batalha jurídica mais importante ainda está por acontecer.




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