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O Brasil tem jeito e você tem 49 dias para começar a consertar

Oct 3
7 min read

A conta já está posta na mesa, e ela tem o seu nome


RIO DE JANEIRO, 16 de agosto de 2026 — Recebi a mensagem à 0h01. Um minuto depois da meia-noite, exatamente o instante em que a lei eleitoral finalmente autoriza um brasileiro a pedir voto para outro brasileiro. Flávio não esperou o sol nascer. Não esperou o palanque de Copacabana, nem o som da praia, nem a foto. Ele esperou o relógio virar.

E tem um simbolismo aí que eu não consigo ignorar.

Porque a mensagem não veio de um homem confortável. Veio de um filho que está proibido por decisão judicial de visitar o próprio pai, preso, doente, com os direitos políticos suspensos e impedido até de divulgar manifesto político-eleitoral, inclusive por meio de carta, até o término das eleições de outubro. Veio de alguém que teve a prerrogativa de advogado suspensa por 90 dias, o que o impede de visitar o pai até depois do primeiro turno.

Vale a comparação, porque ela dói: nos 580 dias em que esteve preso em Curitiba, Lula manteve seus perfis em redes sociais ativos, com postagens feitas por assessores, e recebeu 572 visitas em apenas seis meses, incluindo artistas internacionais e líderes políticos.

Um foi calado. O outro deu entrevistas.

Qualquer pessoa honesta, de qualquer lado do espectro, precisa parar por um segundo diante desses dois parágrafos e se perguntar se está tudo bem.

A conta que chegou

Hoje começou oficialmente a campanha. Flávio Bolsonaro abriu na Praia de Copacabana. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começa em 28 de agosto e segue até 1º de outubro.

O primeiro turno é em 4 de outubro. São 49 dias. Sete semanas. Menos que um semestre letivo.

E é justamente nessas sete semanas que se decide o que vai acontecer com o país nos próximos quatro anos. Não é retórica de campanha. São os números.

Nos doze meses encerrados em junho, os juros nominais do setor público alcançaram R$ 1,16 trilhão. No mesmo período do ano anterior, eram R$ 912,3 bilhões. Cresceu quase R$ 250 bilhões em um único ano.

Pare e pense no que significa R$ 1,16 trilhão. Não é dinheiro que foi para escola. Não foi para hospital. Não foi para polícia. É dinheiro que saiu do bolso do brasileiro que paga imposto sobre o pão, sobre a conta de luz, sobre o remédio, e entrou na conta de quem compra título público.

A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a R$ 10,8 trilhões em junho, 81,9% do PIB. Só em 2026, a dívida bruta avançou 3,3 pontos percentuais do PIB.

E as famílias? O percentual de famílias brasileiras endividadas chegou a 82% em julho de 2026, sexto recorde consecutivo na série histórica da pesquisa da CNC, contra 78,5% em julho de 2025.

Agora o dado que eu não consigo ler sem sentir raiva: entre as famílias que ganham até três salários mínimos, 84,9% estão endividadas.

Quem menos tem é quem mais deve. Simples assim a nossa triste realidade.

O preço do dinheiro

A Selic está em 14% ao ano. Quatorze por cento.

Esse é o custo do dinheiro no Brasil de hoje, e é ele que explica quase tudo o que vem depois. É por isso que a empresa não investe. É por isso que o jovem não abre negócio. É por isso que a família rola dívida no cartão e paga juros que nenhuma economia saudável toleraria.

E não se trata de um problema que esteja resolvido. O Boletim Focus, que reúne as projeções do mercado, aponta IPCA de 5,02% para 2026, acima do teto da meta. O próprio IBGE alertou que o Super El Niño esperado para o segundo semestre pode afetar a colheita e voltar a pressionar os preços dos alimentos.

Ou seja: o pior da conta ainda pode estar pela frente, e quem vai sentir primeiro é quem compra comida com o que sobra, não com o que tem.

As empresas que não aguentaram

Em 2025, 2.466 empresas estiveram envolvidas em processos de recuperação judicial, o maior patamar da série histórica, avanço de 13% sobre o ano anterior. Foram 977 pedidos, o maior volume desde 2016.

E aqui está o dado que revela o tamanho real do estrago. Em 2016, no auge da recessão, foram 977 processos envolvendo 1.738 empresas. Em 2025, o mesmo número de processos envolveu 2.466 empresas. Há mais companhias em apuros agora do que na pior crise da última década, e sem que ninguém tenha decretado recessão.

O diagnóstico da economista-chefe da Serasa Experian é direto: muitas empresas entraram em 2025 ainda fragilizadas depois de um ambiente de juros bastante restritivo, o que resultou em um estoque de dívidas elevado e caro.

Cada CNPJ nessa lista é um galpão que fechou. É uma folha de pagamento que não saiu. É um pai de família que chegou em casa sem saber o que dizer.

Mensalão, Petrolão, Aposentadão

A memória curta é o maior aliado da corrupção no Brasil.

O mensalão terminou em condenações no Supremo. O petrolão terminou com boa parte de suas provas anuladas, e os condenados voltaram para casa. E hoje temos o esquema do INSS, o desconto que sangrou a aposentadoria de quem já tinha dado a vida ao país.

Descontar dinheiro de aposentado. É preciso um tipo específico de frieza para inventar isso.

E o que se vê é sempre o mesmo roteiro: o pobre que rouba galinha vai preso na hora; o poderoso que rouba bilhão negocia acordo, recorre, prescreve e reaparece dando entrevista sobre soberania nacional.

Não é sobre vingança. É sobre isonomia. Um país onde a lei pesa diferente conforme o sobrenome do réu não é uma democracia madura. É uma aristocracia com urna eletrônica.

O Nordeste merece mais do que ser tratado como curral

Eu trabalho com educação pública há mais de duas décadas. Então deixem que eu fale sobre a parte que conheço.

Nenhuma região do Brasil foi tão instrumentalizada politicamente quanto o Nordeste. E nenhuma foi tão pouco desenvolvida por quem mais lucrou com os seus votos.

O Nordeste não precisa de mais cesta básica na véspera da eleição. Precisa de escola técnica. Precisa de laboratório. Precisa de internet na sala de aula, de professor bem pago, de ensino médio integrado ao mundo do trabalho, de universidade que fique perto de casa e de política de inovação que faça o jovem de Petrolina, de Feira de Santana e de Caruaru poder criar empresa sem precisar pegar um ônibus para o Sudeste.

Educação de qualidade é a única política pública que ninguém consegue tomar de volta de você. Não some com mudança de governo. Não vira munição de palanque. Fica.

E é exatamente por isso que ela nunca é prioridade de quem prefere eleitor dependente a cidadão livre.

Mulher, jovem e idoso

Valorizar a mulher não é hashtag em agosto. É creche em horário integral para ela poder trabalhar. É segurança pública para ela voltar para casa. É punição real para quem agride.

Valorizar o jovem não é discurso sobre futuro. É primeiro emprego, é formação técnica, é crédito para abrir o próprio negócio em um país onde o dinheiro não custe 14% ao ano.

Valorizar o idoso é não descontar da aposentadoria dele. Era só isso. E nem isso conseguiram fazer.

As reformas que precisam ser ditas em voz alta

O Brasil não vai se consertar só trocando o inquilino do Planalto. O problema é estrutural, e três frentes precisam entrar no debate eleitoral sem meias palavras.

A primeira é o Congresso. Emendas parlamentares precisam de rastreabilidade total, execução auditável e responsabilização de quem indica e de quem executa. Dinheiro público sem digital é convite ao crime.

A segunda é o pacto federativo. Governadores e senadores precisam responder por resultado, não por foto de inauguração.

A terceira, e a mais delicada, é o Judiciário. E aqui eu escolho a palavra com cuidado: não se trata de “limpar” tribunal, e sim de reformar regras. Mandato fixo para ministros do Supremo, idade mínima e máxima, critérios objetivos de indicação, sabatina com peso real no Senado, limites claros para decisões monocráticas e para o uso de inquéritos abertos de ofício.

Nada disso é ataque à democracia. Tudo isso está na Constituição de dezenas de democracias consolidadas. O que não é normal é uma Corte onde um ministro sozinho decide quem fala, quem visita, quem publica e quem é investigado.

São 49 dias, e a parte que cabe a você

Eu não escrevo isso como quem torce por um time. Escrevo como pai.

Roger e Letícia vão herdar exatamente o país que a minha geração deixar. Não o país que a minha geração comentou no grupo de WhatsApp. Não o país que a minha geração criticou no almoço de domingo. O país que nós construirmos, ou deixamos de construir, nas urnas.

E é isso que me tira o sono: a distância entre o quanto o brasileiro reclama e o quanto o brasileiro age.

Reclamar é grátis. Agir custa.

Custa conversar com o vizinho que pensa diferente sem gritar. Custa checar informação antes de compartilhar, porque mentira compartilhada por gente honesta destrói mais que mentira inventada por desonesto. Custa levar o parente que nunca vota até a seção eleitoral. Custa fiscalizar urna, ser mesário, acompanhar o registro de candidatura do seu bairro. Custa ler o programa de governo até o fim, mesmo quando é chato.

São 49 dias. Não são quatro anos. Não é uma vida. São sete semanas.

Depois disso, a conta chega, e ela não pergunta em quem você votou. Ela chega para todo mundo igual: no preço do arroz, na fila do hospital, na porta da escola do seu filho, no boleto que você abre com medo.

Que país vamos entregar a eles?

Ainda dá tempo de a resposta ser diferente. E isso depende de você. Afinal, a conta é sua, a conta é nossa.

Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.

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