O mal é devorador
Quem colabora com o mal para salvar a própria pele descobre tarde demais que também será devorado por ele
A literatura dá nomes a comportamentos que para nós parece difícil descrever com a experiência da vida. Há um arquétipo moral clássico, presente em literatura, cinema, teatro e mitologias: o covarde pragmático, o traidor oportunista, o egoísta adaptativo, o colaboracionista. Esse arquétipo com suas variações possui uma estrutura dramática conhecida: diante do mal, escolhe salvar a própria pele e abandona o vulnerável — e, no final, o mal o devora exatamente como devorou aqueles que ele deixou para trás.
Diante do medo, o indivíduo busca proteção no poder injusto — e acredita que sua obediência irá comprar sua sobrevivência. Esse comportamento provém da imaturidade moral e falha de caráter (akrasia + covardia).
Ele acredita que proteger inocentes é “problema dos outros”, que desafiar o opressor custa caro demais e que sua esperteza o colocará acima do caos.
Não percebe que o mal é insaciável, que colaborar com o opressor não elimina o risco, o aumenta, que ser útil ao tirano hoje não garante ser poupado amanhã.
É uma imunidade ilusória. A pessoa acha que será a exceção, pois aos injustiçados faltou a esperteza estratégica da covardia.
Ocorre que quem abandona o inocente pensando salvar a si mesmo, acaba perdendo ambos.
O tirano sempre descarta seus aliados covardes porque eles provaram que podem trair (logo, não são confiáveis). O tirano despreza a fraqueza deles. O sistema precisa eliminar delatores, cúmplices menores e intermediários para se manter.
Em todo ser humano há a tentação de salvar-se abandonando o justo, mas é necessário resistir.
Sempre que o mal cresce, surgem os que tentam “negociar” com ele. E o mal, por sua própria natureza, não negocia — apenas devora.





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