top of page

O retorno de Michel Temer: o porto, o PCC, o INSS e a China

Oct 4
4 min read

Narcotráfico no Porto de Santos, Michel Temer e a briga dos lobistas

No subsolo da política brasileira, onde a ambição caminha com o silêncio e a corrupção prospera no vaivém das alianças, o nome de Michel Temer volta a emergir. Não como protagonista de manchetes diretas, mas como o maestro invisível de um teatro cuidadosamente coreografado. Enquanto as atenções se voltavam para os escândalos do INSS, com o PDT e o PT no centro da lama, o ex-presidente parecia assistir a tudo das sombras — sorrindo, avaliando, calculando.

Quando explodiu o caso do roubo bilionário de aposentadorias e pensões, eu fiz uma previsão que, à época, poucos levaram a sério: Temer estaria por trás da revelação do escândalo. Não como denunciante moral, mas como estrategista. A denúncia, lançada um ano antes das eleições, parecia oferecer-lhe exatamente o que precisava: um flanco aberto na esquerda governista, colocando o PT e o PDT no banco dos réus populares, sem que ele precisasse sujar as mãos diretamente.

Essa não seria a primeira vez. Michel Temer, que sobreviveu a duas denúncias criminais durante seu governo, que escapou de investigações com a frieza de um operador veterano, parece agir sempre pelo mesmo método: deixar que seus adversários se destruam. E neste novo ciclo, há duas forças que ele quer tirar do caminho: Lula e Bolsonaro.

A tese é simples. Se Lula se desgasta com o escândalo do INSS e as novas denúncias sobre tráfico de influência, e Bolsonaro permanece juridicamente encurralado por decisões do STF e da Justiça Eleitoral, abre-se uma avenida política onde Michel Temer imagina ainda poder voltar a reinar — não necessariamente como presidente, mas como fiador de uma nova “frente de centro”.

Mas o caminho não é apenas doméstico. O foco de Temer parece estar também no lobby internacional, especialmente com a China.

O caminho para o Oriente

A relação entre Michel Temer e os interesses chineses não é nova. Durante seu governo, o MDB abriu canais diretos com o Partido Comunista Chinês, promovendo eventos, viagens diplomáticas e acordos econômicos. Mais recentemente, figuras do seu bloco político, como o prefeito Eduardo Paes (PSD/RJ) — aliado de Temer — atuaram diretamente para empresas chinesas, como a gigante BYD, do setor automotivo e tecnológico.

A presença chinesa em setores estratégicos, como infraestrutura, energia e portos, coincide com áreas onde Temer historicamente exerceu poder — especialmente no Porto de Santos, seu quintal político. Ali, durante décadas, ele nomeou diretores, manipulou licitações, e criou o ambiente ideal para a promulgação do Decreto dos Portos, uma medida sob medida para beneficiar empresas específicas — como a Rodrimar — em troca de propinas, segundo a Polícia Federal.

É nesse contexto que surgem denúncias cruzadas: de um lado, as investigações da Lava Jato e da Operação Descontaminação; de outro, as revelações sobre a atuação do PCC no Porto de Santos, transformado em corredor principal da cocaína que sai do Brasil para a Europa. A estrutura de corrupção criada no porto pavimentou o mesmo caminho logístico explorado pelo narcotráfico.

Coronel Lima, a Argeplan e a política como fachada

No centro das operações de Temer estava o discreto coronel João Baptista Lima Filho, sócio da Argeplan, uma empresa de fachada segundo o MPF, usada para intermediar contratos, lavar dinheiro e manter o nome de Temer fora das planilhas.

A empresa recebeu recursos de empresas beneficiadas por decretos assinados por Temer, inclusive de construtoras, operadoras portuárias e companhias do setor elétrico. Documentos apreendidos pela Polícia Federal mostram pagamentos de milhões sem contrapartidas comprovadas, movimentações financeiras incompatíveis e trocas de favores com empresários interessados em manter contratos com o governo.

Nada disso impediu Temer de sair ileso até agora. Nem a mala de R$ 500 mil entregue ao seu assessor Rocha Loures. Nem a delação de Joesley Batista, gravada no Jaburu. Nem a denúncia de que ele pessoalmente pediu R$ 10 milhões à Odebrecht. O Judiciário, curioso e parcimonioso com os poderosos, absolveu Temer no caso do Decreto dos Portos por “falta de provas”, mesmo com evidência documental abundante.

O PCC e o escoamento de drogas por meio de navios chineses

Paralelamente, operações recentes da Polícia Federal como a Taeguk, Pactolo e Open Doors, além de investigações da Europol e da DEA, revelaram que o PCC infiltrou profundamente o Porto de Santos, utilizando terminais, contêineres e funcionários cooptados para escoar drogas ao exterior.

Navios de bandeira chinesa como o Hyundai Oakland e o Cosco Shipping Seine foram interceptados com cocaína oculta. O crime organizado brasileiro agora rastreia suas cargas com AirTags e utiliza mergulhadores especializados para esconder drogas nos cascos dos navios, sob o olhar permissivo ou cúmplice de operadores portuários.

Curiosamente, enquanto essas denúncias emergem, o MDB aproxima-se de grandes grupos chineses, interessados em concessões portuárias, energéticas e tecnológicas. A conexão entre os interesses políticos do grupo de Temer, os espaços da infraestrutura nacional e o capital chinês começa a se desenhar como um projeto de poder: Temer quer ser o “homem da China” no Brasil.

O homem nas sombras

Michel Temer age como uma sombra sobre o tabuleiro político nacional. Ele não aparece, mas todos os movimentos o beneficiam. Não é réu no caso do INSS, mas foi quem mais capitalizou politicamente. Não tem cargo público, mas articula alianças com partidos, empresários e embaixadores. Não é mais presidente, mas sonha ser o fiador de um novo regime oligárquico, onde China, MDB e Centrão controlam o país em nome da estabilidade.

O Brasil, enquanto isso, vê seu maior porto servir simultaneamente ao tráfico de cocaína, ao tráfico de influência e ao tráfico de interesses estrangeiros.

No meio desse labirinto, restam perguntas sem resposta:

• Por que Michel Temer nunca foi julgado com a mesma severidade que seus contemporâneos? • Qual é o real papel da Argeplan, hoje ainda ativa em licitações públicas? • O que o Brasil vai entregar à China nos próximos anos — infraestrutura, dados, ou soberania?

E, por fim: quanto vale o silêncio de Michel Temer — e quem o está comprando agora?

Comments


bottom of page