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OpenAI discute reservar 5% ao governo dos EUA antes de abrir capital

Oct 3
5 min read

Proposta de Sam Altman destinaria ações a um fundo público inspirado no modelo do Alasca; conversas ainda são preliminares e podem depender de aprovação do Congresso


WASHINGTON, 10 de julho de 2026 — A OpenAI discute destinar ao governo dos Estados Unidos uma participação equivalente a 5% de seu capital. A proposta integra um plano mais amplo pelo qual as maiores empresas americanas de inteligência artificial reservariam parte de suas ações para um fundo público.

As conversas ainda são preliminares. Não há acordo, contrato ou definição sobre a origem das ações. A informação foi publicada pelo Financial Times, que ouviu duas pessoas familiarizadas com o assunto. A Reuters afirmou que não conseguiu confirmar o relato de maneira independente. OpenAI, Casa Branca e outras empresas procuradas não comentaram imediatamente.

O projeto não prevê, ao menos no formato divulgado, que o Tesouro americano simplesmente compre 5% da OpenAI. A ideia seria depositar as ações em um veículo de investimento inspirado no Alaska Permanent Fund, instituição que administra parte das receitas petrolíferas do Alasca e distribui dividendos anuais aos moradores do Estado.

Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI, discutiu a proposta com o presidente Donald Trump, o secretário do Comércio, Howard Lutnick, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent. Também conversou com o senador Bernie Sanders, defensor de uma participação estatal muito maior nas empresas de inteligência artificial.

A própria OpenAI já havia proposto a criação de um fundo nacional que permitisse aos cidadãos americanos participar do crescimento econômico produzido pela inteligência artificial, inclusive àqueles que não possuem ações ou investimentos no mercado financeiro. A empresa apresentou a ideia como uma proposta inicial, sujeita ao debate público e ao processo democrático.

Uma fatia de US$ 42,6 bilhões

A OpenAI concluiu, em março, uma rodada de investimentos de US$ 122 bilhões que avaliou a companhia em US$ 852 bilhões. Com base nesse valor, uma participação de 5% corresponderia a aproximadamente US$ 42,6 bilhões. Caso a empresa alcance uma avaliação de US$ 1 trilhão ao entrar na Bolsa, a mesma fatia valeria US$ 50 bilhões.

Esses números, porém, não devem ser confundidos com o valor de uma transação. Não se sabe se a OpenAI emitiria novas ações, diluindo os atuais acionistas, ou se os 5% seriam retirados das participações já existentes. Também não foram definidos os direitos políticos da eventual fatia governamental: poder de voto, indicação de conselheiros, acesso a informações internas ou simples participação nos dividendos.

Essa incerteza impede que a negociação seja tratada como uma venda consumada. Até agora, existe uma proposta política, não uma operação financeira concluída.

Altman também sugeriu que outras empresas americanas reservassem participações semelhantes. Anthropic, Google, Meta e outras companhias do setor poderiam, em tese, contribuir para o mesmo fundo. Não há, contudo, indicação de que tenham concordado. A administração Trump e a Anthropic disseram posteriormente que não discutiram a entrada do governo no capital da empresa responsável pelo Claude.

O regulador como acionista

A proposta contém uma vantagem política evidente para a OpenAI. Ao entregar ao público uma parcela de seu crescimento, a empresa procura responder ao temor de que a inteligência artificial concentre riqueza, substitua trabalhadores e deixe os custos da transformação econômica para a maioria da população.

Mas o projeto também cria uma dificuldade institucional igualmente evidente: o governo encarregado de fiscalizar a empresa passaria a lucrar com sua valorização.

A participação poderia aproximar a OpenAI da Casa Branca e diminuir a percepção de risco regulatório entre investidores. Um analista da Forrester ouvido pela Reuters afirmou que a presença do governo antes do IPO poderia aliviar parte dessa incerteza. O mesmo arranjo, porém, abriria espaço para que outros países exigissem participações semelhantes como condição de acesso aos seus mercados.

Não há prova de que a OpenAI receberia facilidades regulatórias em troca das ações. Tampouco foi anunciada qualquer promessa de tratamento preferencial. A coincidência dos interesses, entretanto, basta para produzir a pergunta: com que independência o governo imporia restrições a uma companhia cuja valorização beneficiaria os cofres públicos?

O problema não desaparece porque a participação seria minoritária. Em áreas como segurança nacional, contratos militares, exportação de modelos e acesso de estrangeiros a sistemas avançados, decisões federais podem alterar rapidamente o valor comercial de uma empresa de inteligência artificial.

A tensão tornou-se visível nas semanas anteriores à divulgação da proposta. Segundo a Reuters, um pedido do governo levou a OpenAI a adiar a liberação ampla do GPT-5.6. A Anthropic também restringiu temporariamente o acesso de estrangeiros a seus modelos mais avançados após uma determinação federal, embora as limitações tenham sido retiradas posteriormente.

Esses episódios mostram por que a regulação pesa tanto nos planos das empresas. Não demonstram, contudo, que a cessão dos 5% eliminaria obstáculos ou aceleraria lançamentos futuros. Apresentar esse benefício como certo significaria atribuir às negociações uma contrapartida que nenhuma das partes anunciou.

A caminho da Bolsa

A discussão ocorre enquanto a OpenAI prepara uma das maiores ofertas públicas de ações da história. A empresa apresentou confidencialmente o pedido de abertura de capital em junho, mas não divulgou o tamanho da oferta nem estabeleceu uma data para a estreia na Bolsa.

Fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que a companhia busca uma avaliação de até US$ 1 trilhão. A listagem poderia ocorrer ainda em 2026, embora dirigentes e assessores também considerem a possibilidade de adiá-la para preservar a avaliação pretendida.

A necessidade de capital explica a pressa. Em 2025, a OpenAI obteve cerca de US$ 13 bilhões em receitas, mas registrou US$ 34 bilhões em custos e despesas. Desse total, aproximadamente US$ 19 bilhões foram destinados a pesquisa e desenvolvimento, e quase US$ 6 bilhões a vendas e marketing.

No primeiro trimestre de 2026, a empresa gerou US$ 5,7 bilhões em receita e consumiu US$ 3,7 bilhões em caixa, segundo documentos apresentados a acionistas e citados pelo site The Information. A Reuters não verificou os números de forma independente.

O crescimento é rápido; o consumo de dinheiro, também. Treinar modelos, comprar chips, contratar pesquisadores e manter centros de dados exige recursos que mesmo as receitas bilionárias ainda não cobrem. A abertura de capital permitiria à OpenAI captar somas maiores, financiar aquisições e usar ações negociadas em Bolsa como moeda em novos contratos.

A participação governamental poderia oferecer aos investidores um sinal de proximidade política. Mas proximidade não equivale a segurança. Um governo acionista também pode impor condições, exigir informações, intervir na administração ou submeter decisões empresariais a disputas partidárias.

Política industrial

A entrada do governo no capital de uma empresa privada não seria inédita na atual política industrial americana. A administração Trump já converteu recursos federais em participações de aproximadamente 10% na Intel e 15% na MP Materials, empresa ligada à produção de minerais estratégicos. O objetivo declarado foi fortalecer cadeias de fornecimento e reduzir a dependência da China.

A inteligência artificial, entretanto, apresenta um problema mais complexo. O governo não seria apenas financiador ou comprador. Seria, ao mesmo tempo, acionista, regulador, cliente, contratante militar e árbitro de questões relacionadas à segurança nacional.

A proposta poderá aproximar interesses públicos e privados. Poderá também confundi-los.

Antes de qualquer acordo, será necessário esclarecer de onde sairão as ações, quem administrará a participação, quais direitos acompanharão os 5%, como os rendimentos chegarão aos cidadãos e quais regras impedirão o governo de favorecer uma empresa da qual se tornou sócio.

Até que essas perguntas sejam respondidas, a negociação deve ser descrita pelo que realmente é: uma ideia política de grande valor econômico, ainda distante de se transformar em negócio concluído. O ponto decisivo não é apenas quanto valerão os 5% da OpenAI. É saber quem fiscalizará a empresa quando o fiscal também passar a lucrar com ela.

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