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Professores brincando de pique-esconde

Oct 3
3 min read

Há uma espécie curiosa proliferando no Brasil contemporâneo: o intelectual ornamental. Ele não pensa — posa. Não julga — suspira. Não distingue o justo do injusto — recita abstrações. É facilmente reconhecível: fala em “direito natural”, “moral da guerra” e “consciência bem formada” com a mesma desenvoltura com que ignora fatos, cadáveres e tiranias reais. É o tipo humano que só consegue ser rigoroso quando o risco é zero.

Essa molecada — quase sempre criados por avós zelosas, longe de qualquer fricção com a realidade — subitamente se descobrem tomistas de emergência quando os Estados Unidos resolvem agir contra um ditador narcotraficante e assassino. Aí, vejam só, aparecem Platão, Tomás de Aquino, o jus gentium, a moral objetiva. Tudo muito bonito, muito grave, muito professoral. Falta apenas um detalhe: coragem moral, própria de adultos.

Porque essa régua metafísica, curiosamente, some quando aplicada ao Brasil real. Some diante de censura judicial, de perseguição política, de prisões arbitrárias, de inquéritos sem fim, de poder concentrado num tribunal que já não responde a ninguém — sobretudo quando o epicentro desse processo atende pelo nome de Alexandre de Moraes.

Aí, o direito natural vira nota de rodapé, no melhor dos cenários. A moral objetiva entra em recesso e viaja para a Disney. A consciência “bem formada” pede licença para não se pronunciar.

A moral que só funciona quando o sofá não se move

O truque é velho:

Contra inimigos externos, hipermoralismo abstrato; contra tiranos domésticos, silêncio sofisticado.

Maduro é tratado como se fosse um príncipe belga legítimo injustiçado por um império malvadão. Já um juiz brasileiro que concentra funções de vítima, investigador, acusador e julgador é descrito, no máximo, como “figura controversa”. O massacre venezuelano exige sutileza moral; a destruição do devido processo legal no Brasil exige “responsabilidade institucional”.

Isso não é filosofia. É covardia travestida de erudição. É Pablo Vitarismo acadêmico.

Esses meninos adoram falar da “moral da guerra”, mas só quando a guerra não os ameaça. São pacifistas de estúdio, prudentes de Instagram, mártires de almofada. Jamais viveram sob um regime arbitrário, jamais enfrentaram o Estado, jamais arriscaram nada além da reputação em bolhas acadêmicas.

Por isso se sentem à vontade para condenar quem age — e incapazes de condenar quem oprime.

A verdade é simples e brutal: o direito natural não protege criminosos no exercício do crime, nem tiranos que sequestram Estados, nem magistrados que destroem as bases da legalidade enquanto discursam sobre democracia. Quem não entende isso pode ter lido Tomás de Aquino — mas não o compreendeu. Ou pior: compreendeu e fingiu não entender.

O Brasil produzia gênios sem conflito. Hoje, produz moralistas sem tragédia. Gente que nunca perdeu nada, nunca foi perseguida, nunca foi silenciada — e por isso acha que tudo é um debate de seminário.

Esses não defendem o direito natural. Defendem o conforto.

Não defendem a moral objetiva. Defendem a própria biografia limpa.

Não defendem a justiça. Defendem a própria imagem.

E quando o mundo real bate à porta — com ditadores, narcotráfico, censura e tribunais hipertrofiados — eles correm para o único lugar que conhecem bem: a abstração covarde.

No fim, não são filósofos.

São meninos criados com avó, brincando de consciência enquanto o mundo arde em chamas em um banho de sangue.

E o mundo, como sempre, não está nem aí para a pose deles.

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