Vorcaro tentou levantar dados pessoais de Malu Gaspar para barrar reportagens sobre o Banco Master
Mensagens extraídas pela PF do celular de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, mostram que o ex-banqueiro pediu ao publicitário Thiago Miranda que buscasse informações pessoais sobre a jornalista
BRASÍLIA, 2 de julho de 2026 — Os diálogos, revelados pelo site Fatos Online na quarta-feira, 1º de julho de 2026, são de março e abril de 2025. Naquele período, Malu publicava reportagens sobre suspeitas envolvendo o Master, a crise financeira do banco e a tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília, operação que posteriormente seria barrada pelo Banco Central.
Segundo as mensagens, Vorcaro demonstrou irritação com a cobertura jornalística e afirmou que precisava “frear a Malu Gaspar”. Após uma entrevista considerada por ele “bem ruim”, escreveu a Miranda: “Vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal”.
Miranda respondeu que iria “revirar a vida” da jornalista. Em seguida, passou a relatar ao fundador do Master o andamento das buscas. Disse que sua equipe estava “atrás” de dados e que havia procurado processos antigos, informações sobre carteira de habilitação, familiares, contas bancárias e renda mensal da colunista.
Em uma das mensagens, o publicitário afirmou:
“Meu time está atrás. Precisamos achar algo.”
Depois, acrescentou:
“Nem multa na CNH dela encontrei. Filhos novos ainda também. Te deixo ciente, vou achar algo.”
As conversas também mostram que Miranda acompanhava de perto as publicações de Malu sobre o Banco Master. Em 2 de abril de 2025, ele encaminhou a Vorcaro uma reportagem da colunista segundo a qual o banco não tinha caixa suficiente para honrar compromissos assumidos até o fim daquele ano.
“Ela não para”, escreveu Miranda.
Na sequência, o publicitário enviou informações sobre endereço, carro, contas bancárias e suposta remuneração mensal da jornalista. Em outro trecho, ele admite não ter encontrado nada que pudesse ser usado contra ela.
“Realmente, meu amigo, não tem absolutamente nada”, escreveu.
Ainda assim, Miranda afirmou que seria preciso “arrumar uma forma de calar essa mulher”.
As mensagens indicam também que Vorcaro e Miranda discutiram uma tentativa de abordagem por meio de proposta profissional. Vorcaro mencionou a possibilidade de fazer uma “proposta milionária” para Malu. Miranda sugeriu que ela fosse contratada pela revista IstoÉ, vinculada ao grupo Entre. Vorcaro, porém, respondeu que a tentativa deveria partir do próprio Miranda.
À época, Miranda era CEO do Grupo LeoDias, empresa na qual chegou a ter participação societária. Segundo nota divulgada pelo próprio veículo em janeiro deste ano, ele deixou o cargo em junho de 2025.
Entre os arquivos apreendidos pela PF havia um documento identificado como “Carta Proposta Malu Gaspar”, ao qual o Fatos Online afirmou ter tido acesso.
As conversas mostram que Vorcaro e Miranda chegaram a discutir salário e valores de luvas contratuais que poderiam ser oferecidos à jornalista. O objetivo, segundo a interpretação dos investigadores e do conteúdo revelado, seria interromper a cobertura sobre o Banco Master.
No mesmo período, Miranda também fez uma proposta de contratação ao colunista Lauro Jardim, também de O Globo.
Em outro diálogo, Vorcaro demonstrou preocupação com o avanço das reportagens de Malu Gaspar e Lauro Jardim:
Vorcaro: “Malu e Lauro vieram com mais fúria após a abordagem.” Vorcaro: “Lauro soltou 5 matérias em 3 dias.” Vorcaro: “Não sei como ficaram as tratativas, mas acho melhor abortar.” Miranda: “Eles me pediram tempo para organizar a vida.” Miranda: “Eu vou por outro caminho. Vou descobrir algo. Eles não são santos.”
O conteúdo das mensagens se soma a outros elementos da investigação sobre a atuação do grupo ligado a Vorcaro contra jornalistas. Em março de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, afirmou haver indícios de que o ex-banqueiro determinou a simulação de um assalto — ou de uma situação semelhante — para “prejudicar violentamente” Lauro Jardim.
Segundo Mendonça, o objetivo da ação seria “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”.
As conversas relacionadas a Lauro Jardim envolveriam Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado pela PF como “Felipe Mourão” e apelidado de “Sicário”. Mourão seria ligado ao grupo conhecido como “A Turma”, descrito pela polícia como um braço de intimidação usado para pressionar adversários do grupo de Vorcaro.
Em nota, O Globo repudiou a devassa contra Malu Gaspar e afirmou que a ação buscava “calar a voz da imprensa”. O jornal disse que seus jornalistas “não se intimidarão” e que continuarão acompanhando o caso.
A defesa de Thiago Miranda afirmou que não teve acesso às mensagens e aos arquivos citados e, por isso, não poderia se manifestar sobre o conteúdo. Também repudiou o que classificou como “vazamento seletivo” da investigação.





Comentários